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Dados reais de uma escola pública do estado Rio de Janeiro:

  • 1800 alunos.
  • 40 turmas divididas em três turnos. Aproximadamente 4000 aulas por mês.
  • R$ 36.000 reais, em quatro parcelas de 9.000. Verbas anuais liberadas pelo governo do estado para custear água, luz, merenda, telefone, material de limpeza, material pedagógico e custos de manutenção:
  • Estimativa do custo anual total dos salários dos professores: 4000 aulas R$9,00 hora/aula= R$ 36000,00 por mês x13,3 meses (12 meses+ férias e 13º salário)= R$478.800,00.
  • Estimativa do custo dos salários dos outros funcionários da escola (10 ao todo): 10 funcionários x 40 horas de trabalho x 4 semanas x R$ 9,00 h/aula x 13,3 meses= R$191.520,00 .
  • Soma dos custos anuais com verbas para o colégio, salários dos professores e salários de funcionários:   R$ 36.000,00 + R$ 478.800,00 + R$191.520,00 = R$.706.320,00
  • Custo anual por aluno= R$ 706.320,00 : 1800 alunos= R$ 392,40
  • Custo mensal por aluno= R$392,40 : 12 meses= R$32,70

Duas perguntas:

1 – Será que algum colégio particular tem uma mensalidade deste valor?

2 – É possível uma educação de qualidade pelo preço de R$ 32,70 por mês?

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“Não tenha vergonha de pedir ajuda, pai”.

A charge acima me fez lembrar de uma conversa que tive com o pai de um aluno há algum tempo. Foi assim:

— Sabe professor, sua prova estava muito difícil.

— Ora, tudo o que foi cobrado na prova estava nos exercícios. — Respondi.

O pai não se deu por vencido e retrucou.

— Pois então. Estes exercícios eram dificílimos. Eu não consegui fazer nenhum deles.

— Mas eu não dei aula para o senhor, eu ensinei ao seu filho.

“Em resumo: prestem atenção à esta aula e vocês não serão facilmente enganados como seus pais”.

Desta vez em Ribeirão Preto. O aluno, de 14 anos, espancou a professora de português de 37 anos, quando ela o retirou de sala por estar atrapalhando a aula. Ele levou socos no rosto, chutes no estômago e uma cadeirada.

Daqui a pouco a profissão docente vai ser classificada como “de risco”.

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_ Para saber mais sobre o ataque do aluno à professora de Ribeirão Preto, clique aqui.

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Aqui no Rio de Janeiro, corre à boca miúda a notícia de que os professores públicos estaduais vão receber do governo um laptop.

A maldade do povo diz que o computador é tão ruim que não tem memória e sim vaga lembrança.

Como diria o professor Raimundo: E o salário, ó!

Zezinho é presidente do clube da vadiagem. No ano passado, esteve em todas as recuperações bimestrais. Foi aprovado em algumas matérias e reprovado em outras. Cursou a recuperação final e não passou. Ficou em dependência em duas disciplinas que cursou este ano, juntamente com a série regular. Este ano, Zezinho ficou em todas as recuperações bimestrais e esteve na final. Não satisfeito, ficou em recuperação dependência. Zezinho conseguiu o impensável, reprovou. Coitadinho.

Você deve estar pensando: “bem feito, perdeu o ano”. 

Que isto? Que papo bobo é este de perder o ano. Há sempre um jeitinho de um aluno que não sabe nada passar à série seguinte. O texto da LDB é tão fantástico, que eu resolvi reproduzi-lo abaixo:

Art. 24.(…)

  II – a classificação em qualquer série ou etapa, exceto a primeira do ensino fundamental, pode ser feita:

(…)

 c) independentemente de escolarização anterior, mediante avaliação feita pela escola, que defina o grau de desenvolvimento e experiência do candidato e permita sua inscrição na série ou etapa adequada, conforme regulamentação do respectivo sistema de ensino;”

O Zezinho vai passar de ano. É só procurar uma escola e pedir uma prova de avaliação de escolaridade. Nada impede de fazer várias avaliações em várias escolas ao mesmo tempo. Se ele fizer isto em uma das poucas escolas sérias que existem, ele será avaliado e classificado de acordo com seus conhecimentos e capacidade. Se a avaliação for aplicada por uma escola que está desesperada por matrículas, com certeza ela vai classificá-lo para a série seguinte. Fácil, fácil. Mole, mole.

Sabe quem fiscaliza o nível desta prova de avaliação? NINGUÉM. A escola faz o que quer.

E o Zezinho não precisa se preocupar em ficar longe de seus amigos. Ele pode pedir sua transferência logo no início do ano letivo e voltar a escola que o reprovou. Basta que a escola o aceite de volta. Zezinho não deve se preocupar com a possibilidade da escola não aceitá-lo. Os colégios andam tão desesperados por matrículas que provavelmente vão desenrolar o tapete vermelho para você. De quebra você poderá rir na cara dos professores, aqueles malvados, que o reprovaram no ano anterior.

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_ Para o texto integral da Lei de Diretrizes e Bases da educação, clique aqui.

 

Juquinha é adepto inveterado da vadiagem. Sendo assim, esteve em todas as recuperações bimestrais, passando em algumas matérias e reprovando em outras. Ao final do ano, Juquinha foi à recuperação final, entretanto, diferentemente do Joãozinho do post anterior, ele não passou. Coitadinho.

Esta é a sua situação ou a do seu filho? Bateu o desespero? Calma. Seus problemas acabaram! A lei diz que o sujeito pode passar de ano através da progressão parcial. Vulgarmente conhecida como dependência, a progressão parcial é obrigatória no ensino público e opcional nas escolas particulares.

Quando o colégio tem a mesma série em dois turnos é fácil. O aluno em dependência que estuda no turno da manhã, volta à escola, à tarde, para cursar a matéria em que ficou reprovado. Não havendo a mesma série em dois turnos, a escola pode contratar um professor para a dependência. Funciona da mesma maneira, o aluno da manhã volta à tarde para cursar a matéria em que ficou reprovado. A diferença é que não existe uma turma, apenas ele e o professor.

O problema neste segundo esquema é o valor da mensalidade de dependência. O piso salarial da minha cidade é de R$ 9,32 de 5ª à 8ª série. Para um aluno em dependência na 6ª série, o colégio teria que pagar R$ 139,80 ao professor (3 aulas por semana, por cinco semanas).  

Para os pais a conta é bem diferente. Se normalmente o pai paga, digamos, R$ 300 para que seu filho estude 10 matérias, na dependência em uma matéria ele desejará pagar 10%, R$30. Nenhum colégio pode receber R$30,00 e pagar R$139,80.  A escola precisaria no mínimo de 5 alunos para garantir o salário do professor, sem contar outros custos e lucro. Geralmente as turmas de dependência tem um, no máximo dois alunos. É muito difícil encontrar 5 alunos em dependência, na mesma série, na mesma disciplina.

É aí que os diretores de escolas deixam a criatividade fluir  Já vi professor ser contratado para dar aulas de dependência para todas as séries ao mesmo tempo. Ele tinha três aulas semanais (2 horas e 30 minutos) para ensinar todo o conteúdo para os alunos em dependência da 5ª, 6ª, 7ª e 8ª séries e 1º, 2º anos. Imagine o quanto se ensinava e o quanto se aprendia em uma aula como esta.  Ao final deste ano, perguntei ao professor sobre o rendimento dos alunos. Ele me disse que todos eles tinham sido aprovados. Fantástico, não?

Em outra escola, testemunhei o seguinte diálogo ocorrido em agosto daquele ano. Decorridos 5 meses daquele ano letivo, vira o diretor e fala para o professor do 2º ano:

— Fulano ficou em dependência na sua matéria. Você tem que colocar uma nota para ele, ok?

— Como assim nota? Não deveria haver aulas? Ensino, aprendizagem, conhecimento? Estas coisas?

Ao que disse o diretor:

— Olha rapaz, não atrapalha.  Aqui é assim. Manda o aluno fazer um trabalhinho e coloca a nota aí.

Em várias escolas — públicas e particulares —  a dependência é feita deste modo. Trabalhinhos que substituem um ano letivo inteiro. Depois querem saber o motivo dos péssimos resultados dos alunos brasileiros nos testes internacionais. Vão mal porque não estudam. Não estudam porque não precisam.

Com honrosas e raríssimas exceções — tão raras que eu nunca vi —  a maioria das escolas faz da dependência uma maneira de conseguir as matrículas dos alunos que foram reprovados em outras escolas, ou de garantir que seus alunos não fujam para outros colégios.

Vai uma regrinha para avaliar a escola onde você ou seu filho estuda:

Colégio sério não tem dependência.

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_ Para o texto integral da Lei de Diretrizes e Bases da educação, clique aqui.