Sociedade Brasileira


 Alex Oliveira, rei momo do Rio de Janeiro há 10 anos. Ele fez cirurgia de estômago para redução de peso.

A escolha do rei Momo de Salvador gerou polêmica. Clarindo Silva venceu a competição deste ano, mas pesa 58 Kg. Seus adversários, revoltados, levaram o caso à justiça, pois as regras do concurso determinavam peso mínimo de 120 kg aos candidatos. A juíza Aidê Quais anulou a escolha, determinando que a eleição continuasse com os demais concorrentes.

Segundo a juíza, “a tradição popular deve ser mantida e a escolha de um Rei Momo magro só fortalece o estereótipo estético da magreza predominante na sociedade. (…) Quando se fala de Rei Momo todo mundo pensa em uma pessoa avantajada. É a cultura do povo. Para mudar esse perfil é preciso preparo. Além disso, os gordinhos já são recriminados e justo quando eles têm um lugar garantido querem retirar esse espaço.”

Momo é o nome de um deus grego, ligado ao sarcasmo e à ironia. Segundo a mitologia, era tão chato que foi banido do monte Olimpo e enviado à terra. Desta maneira ele adentrou ao mundo dos festejos humanos.  Em várias cidades do mundo Momo é lembrado ora como o deus zombeteiro expulso do Olimpo, ora, a exemplo do Brasil, como o monarca que conduz a folia nos dias de carnaval.

O primeiro rei Momo do Brasil foi um repórter de turfe do jornal “A noite”, do Rio de Janeiro. Escolhido pelos colegas de redação, em 1933, o gordo Moraes Cardoso reinou absoluto como o monarca da folia da cidade pelos anos seguintes. Após sua morte, em 1948, o rei do carnaval passou a ser escolhido por concurso. As exigências incluíam ter no mínimo 130 kg e uma disputa entre os candidatos para saber quem comia mais.  Em 2002, um decreto da prefeitura acabou com o peso mínimo para os candidatos à rei Momo.

O surgimento da versão light de rei Momo nas duas capitais do carnaval do Brasil, veio da mudança da mentalidade de nossa sociedade com relação ao peso. Em outras épocas, menos abastadas e menos científicas, um corpo rechonchudo era sinônimo de felicidade, abundância e riqueza. Durante o século XX, a medicina ligou o excesso de peso à inúmeras doenças. A gordura foi demonizada. Gordo virou sinônimo de desleixo e de preguiça.

O rei momo é um um dos últimos ícones ligados à esta visão mais antiga da gordura. Só espero que ele não se torne anoréxico, bulímico ou se intupa de remédios para emagrecer.

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_ Para a notícia sobre a escolha do rei Momo de Salvador, clique aqui.

_ Para a história do rei Momo, clique aqui.

_ Para a notícia sobre o fim do rei momo gordo no Rio de Janeiro, clique aqui.

 

Em um colégio de classe alta de minha cidade, uma aluna da 6ª série acusou um funcionário de 46 anos de ter mantido relações sexuais com ela.  O funcionário foi preso por estupro.

Como a vítima tem 13 anos, há presunção de violência (art. 224 do código penal). Mesmo que as relações tenha sido consensuais,  a menor não tem idade para decidir.  Sendo assim, o funcionário é qualificado como estuprador (art. 213) e deve ficar na cadeia por um bom tempo. Há também a responsabilidade da escola, já que os dois se conheceram e o crime foi praticado dentro das dependências do colégio.

Fiquei lembrando do livro de Vladimir Nabokov, Lolita. Nele, o professor Humbert Humbert se apaixona e vive um caso de amor com Dolores Haze — a Lolita, sua enteada de doze anos. Em meados da década de 1950, a pedofilia já era um escândalo. Tanto que o autor teve muitas dificuldades para lançar o livro.

Compreendo que a nossa sociedade tem um grau alto de liberdade sexual e meninas de 13 anos hoje, não são como as meninas de outras épocas. Afinal, até criancinhas estão por aí dançando o Créu — o funk sensação deste verão. No entanto não se pode perder de vista que criança é criança e adulto é adulto.

Se a acusação vier a se comprovar verdadeira, não há desculpa para o crime.

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_ Para ler a notícia sobre a acusação de estupro em Niterói, clique aqui.

_ Para o texto do Código Penal Brasileiro, clique aqui.

_ Para um fórum Juristas sobre o assunto, clique aqui.

_ Para saber mais sobre o livro Lolita, clique aqui. 

 

Todo verão é a mesma coisa, a dengue dá as caras e traz uma novidade. Já apresentou 3 tipos diferentes de vírus e a dengue hemorrágica. A novidade agora é a febre amarela, que, mesmo sem ser dengue, vem roubando a cena.

Nem sou tão velho assim, mas quando eu era criança não havia dengue. Oswaldo Cruz e Emílio Ribas, respectivamente no Rio e SP, procederam uma campanha de erradicação do mosquito que transmitia a febre amarela e a dengue, o aedes aegypti. O último caso da febre amarela urbana registrado é de 1942, no Acre — se bem que o Acre nesta época nem era tão urbano assim. A dengue durou um pouquinho mais, foi erradicada em 1950.

No ano de 1967, O aedes reapareceu no Pará. Em 1976, o mosquito surgiu em Salvador e um ano depois no Rio de Janeiro. Em meados da década de 1980, ele passou a ser figurinha fácil no verão. Nunca mais nos deixou. 

Antes foi possível erradicar o aedes aegipty pois as cidades eram infinitamente mais simples. Não existiam grandes edifícios e condomínios e as poucas favelas eram bem menores. Era viável visitar casa por casa e acabar com os focos domésticos do mosquito. Além de ainda não existir consciência ecológica. Os mata-mosquitos simplesmente tascavam DDT em tudo. Morria o mosquito e todos os predadores dele também. O aedes aegypti foi erradicado à custa de milhares de pássaros e outros animais mortos e da intoxicação de pessoas. Há uma séria desconfiança de que este veneno está associado a certos casos de câncer.

Hoje tudo é mais difícil. As cidades são imensas, com diversos tipos de habitação. Imagine visitar casa por casa em uma favela do tamanho da Rocinha. Isto sem falar no problema da violência urbana — poucos estão dispostos a abrir a porta de casa para um estranho caçar mosquitos dentro dela. E não dá mais para sair fumegando tudo com veneno.

Atualmente, parte da solução seria contar com uma atitude firme e coordenada  dos governos federal, estadual e municipal, que, em vez de ficar neste jogo de empurra sobre quem tem a responsabilidade sobre o mosquito, poderiam combater seriamente as doenças. Eu sei que estou querendo demais, mas eles bem que poderiam deixar as disputas políticas de lado e tentar atuar seriamente neste problema.

Mesmo que isto acontecesse, não seria possível controlar os focos domésticos do mosquito. Para isto devemos contar com a consciência do cidadão. Cada um deve tentar eliminar os focos de mosquito que estão próximos de sua residência. No entanto, este negócio de consciência nem sempre dá certo. O povo acha mais fácil comprar um frasco de repelente, outro de Baigon e deixar a cidadania morrer de dengue.

Ou de febre amarela.

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_Para saber como combater a dengue, clique aqui.

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_ Para saber mais sobre a dengue, clique aqui.

 

Tv ambiente ligada no jornal da Record. De repente vem a notícia:

Hoje, em Marília (SP), um pit bull atacou várias pessoas. O cão ameaçava quem passasse na rua e a polícia foi chamada para tentar controlá-lo. O dono foi encontrado e levou o animal para casa, sem registro de ocorrência pelos policiais.

Finalzinho de reportagem, a jornalista pergunta para o dono do pit bull:

— Seu cachorro já havia apresentado este comportamento violento antes?

— Não. Ele é manso, nunca atacou ninguém. Aliás, quem cuida dele é a minha sobrinha, que tem sete anos.

Daí ele vira para o cachorro e fala:

— Vem. Vamos embora Hitler.

Em todos estes anos como professor de história, foi a primeira vez que vi alguém se referir a Hitler como manso.

Caríssimo seu Fernando, 

Cresci numa área barra-pesada de minha cidade. O lugar era uma verdadeira Woodstock . Todos os tipos de doidos apareciam, compravam e consumiam por ali mesmo a mercadoria. Eu e meus amigos brincávamos — éramos uns 20 moleques — em meio aos negócios e ao consumo da rapaziada. 

Chegando a adolescência alguns de nós passaram a se encantar por aquela maneira de viver a vida. Ficou comum ouvir falar de fulano que se envolveu com a “parada errada”, de beltrano que passou a “formar com os caras” e de sicrano, filho de dona fulana, que morreu porque pegou o “bagulho” e não pagou.

Hoje consigo ver com mais clareza o que acontecia naqueles dias. Quem sobreviveu sem passar pela marginalidade tinha um fator diferenciador — seus pais. Os que escaparam foram aqueles que tinham os pais mais exigentes. Os que hoje estão vivos e sem problemas com a  lei, são aqueles cujos pais criavam regras e limites que não podiam ser descumpridos. Estes pais tinham muito trabalho, mas faziam sua parte.

A minha mãe é um excelente exemplo deste tipo de pai. Mesmo trabalhando o dia inteiro ela sempre sabia o que eu fazia de errado. Não sei como, é verdade. Talvez ela seja agente da CIA e nunca nos contou. Qualquer dia destes eu pergunto.

Uma vez fui jogar bola com alguns dos “caras” da “parada errada”. Quando cheguei em casa, veio logo a pergunta:

— Onde você estava?

— Fui jogar bola — respondi tentando cortar o assunto.

— Com quem?

— Com meus amigos — tentei.

— Tem certeza que você estava com seus amigos? Acho que não…

A partir daí eu já sabia que estava ferrado e era melhor contar a verdade. Contei e ouvi muito. Minha mãe quando briga fala sem parar. Foram dias e dias falando, falando  e falando. Fora o castigo e a surra. Os “caras” até me chamaram para jogar bola com eles outras vezes, mas não dava para ir. Eu não era lá muito obediente, só que não dava para brincar com a minha mãe.

Seu Fernando, minha mãe não colocava panos quentes no que eu fazia de errado. Já o senhor deu mal exemplo. Como pai de um dos que foram presos por jogarem fumaça de extintor de incêndio no rosto de prostitutas, nunca poderia ter afirmado que “Eles não fizeram nada demais. Foi apenas uma brincadeira de crianças. Qualquer um já passou por isto quando era adolescente”.

Seu filho não é mais criança, seu Fernando. Ele tem 19 anos, já tem carteira de motorista e é plenamente imputável. Ele é adulto, cometeu um crime e vai pagar por ele, mesmo que minimamente. Aliás, o Fernandinho é tão adulto que admitiu seu erro, algo que o senhor não foi capaz de fazer.

Seu Fernando, jogar fumaça de extintor de incêndio na cara das pessoas não é brincadeira. Vamos imaginar que uma prostituta de 19 anos pegasse um extintor de incêndio e descarregasse no senhor. Qual seria sua reação? O senhor sorriria e diria que era apenas uma brincadeira de adolescentes?

Seu Fernando, eu imagino o porquê do senhor negar o crime e a responsabilidade de Fernandinho. Talvez algum sentimento de culpa por não ter dado uma educação melhor. No entanto o senhor deveria ter apoiado a autoridade que prendeu seu filho e os outros dois bobalhões. Se o senhor tivesse agido desta maneira, teria dado um exemplo de caráter e firmeza  para o Fernandinho, para os dois bobalhões e para outros pais de bobalhões que existem por aí.

Seu Fernando, por aqui me despeço. Deixo à sua disposição este espaço, caso o senhor necessite de algum conselho sobre como, simultaneamente, amar e ser firme com seus filhos. Escreva sua dúvida que eu repasso à minha mãe. Tenho certeza que ela ficará feliz em ajudá-lo.

Leonardo Chermont

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_ Para a matéria sobre os bobalhões do extintor de incêndio, clique aqui.

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