Política Brasil


 

No debate de ontem, em meio ao tiroteio de acusações mútuas, uma tímida questão educacional surgiu. O presidente Lula acusou o PSDB de manter as escolas de lata durante seu mandato em São Paulo. No grupo de amigos que via o debate comigo uma dúvida generalizada: o que são escolas de lata?

As escolas de lata surgiram como solução para o problema de falta de vagas nas escolas públicas da capital paulista. O então prefeito Celso Pitta determinou a  criação de uma escola de baixo custo e construção rápida. Feitas a partir da montagem de chapas metálicas no formato de contêineres, as escolas de lata se tornam verdeiros fornos durante o verão e congelam durante o inverno. Além disto, o ruído do metal e as dificuldades de isolar os sons exteriores tornam este tipo de construção inviável para educação.

O presidente Lula acusou o governo do PSDB de não resolver o problema das escolas de lata, o que foi enfaticamente negado por Geraldo Alckimin. Os dois estão certos. Não existem mais escolas de lata em São Paulo. A última escola deste tipo foi desativada na quinta-feira anterior às eleições. No entanto existem ainda 7000 alunos que estudam em salas da lata (em escolas de alvenaria, puxadinhos feitos do mesmo inadequado material metálico das escolas de lata).

Escrevi, mês passado, sobre cinco bizarros candidatos a deputado, cuja campanha motivou uma matéria na Folha de São Paulo. Eleições findas, vamos ao saldo da nossa miséria política.

Clodovil se transformou em um dos deputados federais mais votados do Brasil. O estilista conseguiu mais de 400.000 votos para a câmara federal.  O forrozeiro Frank Aguiar foi outro a obter sucesso. Com 144.000 votos também passou a integrar a bancada federal paulista. 

Valentina Caran, que também disputou vaga para a câmara (e não para a assembléia legislativa, como eu havia informado), obteve 6.177 votos e não foi eleita. Salete Campari (3.686 votos) e Marielza do BBB (384 votos) foram as outras derrotadas nas urnas.

Mais do que a eleição do estilista e do forrozeiro em São Paulo, outros vitoriosos nestas eleições são de deixar os cabelos em pé. Collor se elegeu senador por Alagoas com mais de meio milhão de votos. Maluf, mesmo tendo ficado preso por 40 dias no ano passado,  conseguiu mais de 700.000 votos para deputado federal, tornando-se o campeão desta eleição.

Apesar dos pesares existe uma luz no fim do túnel. Dos 63 mensaleiros e sanguessugas indiciados que buscaram a reeleição, 51 foram derrotados nas urnas.

Eu sei. 12 sanguessugas de volta ao congresso ainda é muito. No entanto, lentamente o povo brasileiro está aprendendo a votar.

É nisto que eu quero acreditar.

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_Para todos os resultados das eleições 2006, clique aqui.

_Para a lista dos mensaleiros e sanguessugas eleitos e derrotados, clique aqui.

Em 1950, Getúlio Vargas foi eleito presidente com 48,9 % dos votos. Juntos, os outros dois candidatos daquela eleição, Eduardo Gomes (UDN) e Cristiano Machado (PSD), obtveram 51.9% da preferência do eleitorado. A maioria da população não escolhera Vargas. Este fato foi intensamente usado pela oposição contra Getúlio, cujo mandato terminou de maneira trágica.

Nas eleições seguintes, mais problemas. JK, candidato do governo, conseguira apenas 38,7% dos votos. Bem abaixo da soma de seus concorrentes: 61,25 % dos eleitores. Esta disparidade serviu para a UDN, principal partido de oposição, tentar impedir a posse do presidente eleito pela coligação PSD-PTB. Quem garantiu Juscelino na presidência foi o Marechal Lott, que colocou o exército nas ruas e acabou com o golpe, frustando as intenções udenistas.

Após a ditadura militar,  a assembléia constituinte de 1988 criou o segundo turno, desejando evitar a instabilidade política gerada pela posse de um presidente que não seja o preferido da maioria dos eleitores. Quando um candidato não alcança mais de 50% dos votos válidos, uma nova eleição é realizada com os dois primeiros colocados. Desta maneira o governante é a representação da vontade da maior parte da população. Não há o que reclamar.

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Lembre-se: se você não votar, você não terá argumentos para reclamar de quem for eleito.

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Li no blog da Dani sobre o movimento Rir para não Chorar. É um grupo apartidário que deseja fazer um protesto pacífico no dia das eleições: distribuir nariz de palhaço para os eleitores.

A idéia, segundo os organizadores,  é “ironizar esta situação vergonhosa e deprimente que estamos vivendo”. Com a utilização do nariz de palhaço enquanto vota, o eleitor estaria reagindo contra os abusos políticos de todo tipo.

A campanha se restringirá a São Paulo, mas nada impede que você, em sua cidade, utilize um nariz de palhaço e vá votar,  protestando firmemente contra toda a palhaçada da qual somos vítimas.

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O primeiro debate eleitoral na TV aconteceu nas eleições norte-americanas de 1960, quando Kennedy venceu Richard Nixon. Consta que a performance do candidato democrata durante a discussão, foi fundamental para a vitória.

No Brasil, o primeiro debate entre presidenciáveis televisionado ocorreu nas eleições de 1989. Todos os candidatos participaram, com exceção do líder nas pesquisas Fernando Collor. Além deste, foram feitos mais três debates no primeiro turno daquelas eleições, todos com performances memoráveis de Brizola. Foi ele que questionou Maluf sobre a frase “tá com desejo sexual, estupra mais não mata”, dita pelo candidato paulista dias antes. A frase nunca mais foi esquecida e Brizola terminou as eleições na frente de Paulo Maluf.

Durante o segundo turno, em 1989, foram feitos mais dois debates. Um em 3 de dezembro, quando Lula se saiu melhor do que Collor. E o fatídico debate de 14 de dezembro, três dias antes das eleições. Foi neste que Collor acusou Lula de planejar o confisco da poupança. Além disto, este debate é lembrado por uma denúncia de Collor. Lula, na época encarnando o visual “sou pobre, mas sou limpinho”, tinha um som de última geração, coisa que nem ele, rico e poderoso, teria.

O Jornal Nacional utilizou nos dias posteriores uma edição do debate com os melhores momentos Colloridos e os piores momentos do Lulescos.  Desta maneira Collor conseguiu barrar o avanço de Lula nas pesquisas e se tornou presidente do Brasil.

Hoje, o debate é muito diferente para Lula. Ele é o líder nas pesquisas. O PT não decidiu ainda se irá ou não à TV. Se for, será o alvo dos outros três debatedores. Se não for, não terá a oportunidade de dar suas explicações sobre o dossiêgate. É esperar para ver.

Uma aluna comentou comigo sobre uma matéria de jornal comparando o escândalo do dossiê do PT ao rumoroso caso Watergate, que levou Nixon à renúncia, em 1972.

Existem semelhanças entre os dois episódios. O dossiê, feito pelo partido de Lula com a intenção de vencer as eleições para o governo de São Paulo, se trata de um conjunto de provas contra José Serra, vinculando-o à máfia das ambulâncias.  Portanto é espionagem com objetivos eleitorais. 

Espiões também foram usados nas eleições presidenciais norte-americanas de 1972, quando a sede do partido Democrata foi grampeada a mando do então presidente Nixon. O azar foi a denúncia de roubo no prédio enquanto os agentes faziam o serviço, o que acarretou em sua prisão.

Contudo, uma diferença básica pode ser apontada entre o dossiê brasileiro e o caso estadunidense. Nos EUA, a ação foi comandada diretamente pelo gabinete do presidente da República, utilizando os recursos do país. Os espiões presos no edifíco Watergate eram agentes da CIA. No Brasil, o dossiê foi feito pelo PT com recursos próprios, sem participação, ao menos direta, da presidência da República.

Porém uma pergunta não quer calar: de onde veio o dinheiro, quase 2 milhões, usado pelo PT para o pagamento dos informantes do dossiê?

Só para lembrar, o partido reclamava de falta de recursos no ano passado.

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