Causos escolares


Uma aluna de 15 anos da cidade de Goerlitz, na Alemanha, foi condenada a duas semanas de prisão. Ela insistentemente cabulava às aulas, por isto sua família foi condenada a pagar uma multa. Os pais da moça não aceitaram. O tribunal distrital resolveu então punir a estudante através de serviços comunitários. A moçoila se recusou a cumprir a determinação judicial, sendo assim condenada à cadeia.

Ela deve comparecer a uma prisão nos próximos dois meses para cumprir sua pena.

Se a moda pegar no Brasil, vai faltar cadeia!

Sou professor de um município a 45 Km do Rio de Janeiro. Lá existe  um certo ar interiorano nos costumes, herança do ambiente rural das vizinhanças. Às vezes me sinto como em Sucupira (se você não conhece a cidade das irmãs Cajazeiras, clique aqui).

Em Sucupira, os Odoricos nomeam à vontade para os cargos “de confiança”. A indicação geralmente é baseada na amizade de alguém influente. Conhecimento e experiência contam pouco. Democracia passa longe. Os indicados estão sempre dispostos à conter os subversivos. Conter a língua é fundamental, pois falar a verdade ou exigir direitos são atitudes que podem ser punidas. Exemplo disto é o que ocorreu na última quarta-feira.

O professor Oldair ensina matemática para alunos de 5ª a 8ª série em uma escola municipal de Sucupira. Na última quarta-feira, ao chegar ao colégio, o professor foi comunicado pela diretora da escola que seria transferido e que não poderia dar aulas. Oldair perguntou pelo documento de transferência. A indicada informou que não o possuía. O professor então, afirmando  que só sairia do colégio a partir da apresentação do documento de transferência, subiu para sua turma de 5ª série.

Meia hora depois, a diretora  foi a sala em que Oldair estava com três guardas municipais. Segundo o professor, ela pediu para que os alunos saíssem. Foi quando o professor saiu pelos corredores gritando que estava sendo vítima de injustiça. Os guardas o pegaram à força e retornaram para sala de aula, trancando a porta. Lá, O professor foi agredido e coagido. Saiu algemado pelos corredores do colégio.

O sindicato dos professores de Sucupira foi chamado e encaminhou o professor para a delegacia. Oldair fez queixa-crime contra a diretora por constrangimento ilegal e contra os guardas municipais por agressão.

Esta semana tive um momento de nostalgia. Junto com alguns alunos, estava lembrando como foi minha primeira aula como professor.

Corria o ano de 1994. A mãe da namorada de meu irmão era uma professora de história muito conhecida na cidade. Fui apresentado à professora Frida, que queria fazer um teste comigo antes de me oferecer alguma vaga.

O teste aconteceria no sábado, numa aula extra de um pré-vestibular. Na sexta-feira, ela me instruiu assim:

“Você prepara uma aulinha sobre aquele contexto do início do século XX.  Primeira Guerra, Crise de 1929, Segunda Guerra. Você sabe…”

E eu: “Sei, sei. Claro.”

Sabia nada.  Estava no 5º período da faculdade, não tinha estudado nada disto ainda. No segundo grau fiz o curso técnico em contabilidade, não tive História. Portanto, meus conhecimentos sobre a primeira metade do século XX eram próximos de zero.

Mas como disse Graciliano Ramos, “o sapo pula não por boniteza, mas por precisão”. Tinha que conseguir a vaga. Peguei uns livros em casa, Frida me emprestou outros e lá fui eu preparar a aula.

Primeira Guerra, causas, desenvolvimento…“Até que é fácil”.  Crise do capitalismo… “Ahnn, então quer dizer que a Crise tem relação com a Primeira Guerra? Caramba, tá ficando tarde, não posso perder tempo”.  Fascismo, Nazismo, “ih, não é que são parecidos… xiii, três da manhã, a aula é às 10”.  Segunda Guerra Mundial, “ué, cadê as causas disto… será que são as mesmas da Primeira Guerra?  Meu Deus do céu, amanheceu, não vou conseguir…”

Já era umas 6 da manhã quando terminei. Mas não estava com o assunto na ponta da língua. Era muita coisa, tinha que estudar mais. Lia e relia, compulsivamente. Quando bateu 8 horas, exaurido, não conseguia entender nem aprender mais nada. Desesperei. Chorava copiosamente. Não podia perder uma chance destas.

Mesmo assim lá fui eu. Bati na porta de Frida para mostrar o que tinha feito.

“Olha só Frida, queria que ficasse melhor, mas…”

“Mas está ótimo. Tem até coisa demais. Não dá para tratar de tudo em uma aula. Na verdade eu queria que você escolhesse um tema.”

UFA! Ela tirou uma tonelada de minhas costas. Que beleza, não ia precisar tratar de tudo. Seria só a Primeira Guerra, que era o que eu melhor sabia. Assim, peguei o ônibus e fui para o tal pré-vestibular dar a primeira aula de minha vida.

Para os alunos não deve ter sido grande coisa. Afinal eles estavam acostumados com uma professora bem mais experiente. Mas para mim foi a primeira vez.

E a primeira a gente nunca esquece.

Estávamos sentados na sala dos professores, eu, a faxineira e o porteiro. Eles dois envolvidos em uma tarefa, coisa da faculdade que eles estão cursando juntos. Eu apenas aguardando o sinal para a última aula do dia.

“Quantos são os mandamentos?”  perguntou o porteiro.

“São 11.  Não! São 10.”

“São 10 ou são 11? Já vi que você fez isto aqui nas coxas.”

Ela se indgnou. “Se você é tão sabido, faz sozinho, ué!”

“Tá, vou colocar 10 aqui. E sentidos, são 6, né?”

“Acho que sim.” Falou a faxineira, sem firmeza.

Eu, que acompanhava o diálogo com espanto,  intervi. “Acho que são cinco…”´

Ela conferiu. “Olha aqui no livro, são cinco mesmo. Você é que não sabe nada.”

E ele, prático. “Ah, tá! Deixa isto para lá. Vamos a esta segunda parte aqui. Você respondeu todas estas perguntas?”

“Claro que sim. É rapidinho. Não vale nota. É só para saber sobre você. Aqui, livros, quantos você já leu?”

“Vai dizer que você já leu algum livro?” Duvidou o porteiro.

Ao que respondeu a servente. “Não li não. Odeio ler. Troço mais chato. Esta pergunta eu deixei em branco. Mas você também não deve ter lido nada…”

Ele, orgulhoso. “Já li sim, dois, um na 1ª série e um no 2º ano. A professora obrigou. Mas ler é muito ruim. Prefiro ver filmes.”

Bate o sinal, arrumo minhas coisas para ir para a sala de aula. Mas antes, tomado de uma curiosidade mórbida, pergunto. “Qual curso vocês estão fazendo?”

Ele responde. “Letras”.

E ela completa. “Português-Literatura”.