A semana da pátria


A Dani, do Todo mundo quer confete, comentou que a independência americana é muito festejada nos EUA, é motivo de orgulho da população de lá. Já a nossa nem tanto, o povo gosta mesmo é do feriado. Eu, quando criança, tinha inveja daquele nacionalismo todo. Será que o processo de independência dos Estados Unidos foi mais bonito que o do Brasil?

Poderíamos, numa visão radical, resumir a independência das treze colônias inglesas na tentativa de contrabandistas de chá de evitar o controle da britãnico. Por isto ocorreu o atentado terrorista contra a companhia britânica das Índias Orientais, chamado pelos americanos de Festa do chá de Boston

Levando em consideração a dificuldade de unir em um país os vários pequenos estados desejosos de liberdade, a manutenção da escravidão e o poder dos grupos religiosos radicais, veremos que a independência dos EUA tem pouco de amor à pátria e muito de interesse político. Exatamente como a nossa.

Então, qual a diferença?

A diferença está no uso da história. No caso dos EUA, a história da independência foi utilizada como marco inicial do nacionalismo. É uma forma de indentificação dos norte-americanos. Eram colônias diferentes e autônomas, mas têm isto em comum. No caso brasileiro, o nacionalismo passa longe do 7 de setembro.

D. Pedro I era o príncipe herdeiro da coroa portuguesa. Os brasileiros desconfiavam dele. Imaginavam que seu governo seria uma ponte para a retomada do Reino Unido, após a morte de D. João VI. Sendo assim, o 7 de setembro foi uma criação dos partidários do imperador, na tentativa de mostrá-lo ligado à causa da separação brasileira.

Não deu certo. Os brasileiros acabaram entrando em conflito com o imperador, levando, entre outras causas, à sua abdicação, em 1831.

Além disto, o feitiço virou contra o feiticeiro. Haviam duas datas de igual importância cívica na época, o 7 de setembro e o 12 de outubro, data da aclamançao do imperador e seu aniversário. Os brasileiros passaram a marcar o dia do Grito da Independência como a real festa da pátria, pois, para eles, naquele momento o imperador tornou-se digno de reinar sobre os Brasil.

A versão da independência tendo Pedro I como realizador, só foi retomada com D. Pedro II. Já que também interessava ao novo imperador ser herdeiro do pai da nação, ele não poupou esforços para criar uma história oficial em torno do 7 de setembro.

Diante destas idas e vindas, o nosso nacionalismo, construído a partir da segunda metade do século XIX, exatamente no governo de D. Pedro II, só teve uma forma de comemoração realmente popular e sem intervenção estatal, com o advento do futebol brasileiro, lá pelos idos da década de 1940.

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Pela história tradicional, na volta de uma viagem a São Pauo, a comitiva de D. Pedro I teria sido alcançada pelo serviço de correio da corte na tarde do dia 7 de setembro, às margens do riacho do Ipiranga. A carta, urgente, dizia que o parlamento português – as Cortes de Lisboa –, reunido após a Revolução do Porto, exigia a demissão dos ministros do príncipe e faria uma devassa em todos os seus atos. Após a leitura da mensagem D. Pedro, revoltado com a atitude recolonizadora de Portugal, desembanhou a espada e sentado em seu cavalo, disse:

“Laços fora, soldados. Viva a independência, a liberdade e a separação do Brasil. INDEPENDÊNCIA OU MORTE!”

Tudo muito bonito, tudo muito legal. Mas se você já deixou de acreditar em Papai Noel, não pode acreditar nesta versão também.

Para começar, nosso glorioso libertador estaria com uma bela dor-de-barriga. Motivo da parada “estratégica” às margens do rio Ipiranga. Esta informação é confirmada através do diário do padre Belchior, amigo e confessor de D. Pedro. Dizia ele: “o príncipe era obrigado a, o tempo todo, apear-se para prover”.

Além disto, uma interpretação mais moderna sobre o 7 de setembro informa que o famoso Grito da Independência não aconteceu. A parada para d. Pedro se aliviar teria ocorrido, a entrega da carta também. Realmente o príncipe teria dito para a tropa arrancar os laços que representavam o Reino Unido de Portugal e Brasil. Mas grito no cavalinho, com espada em riste, no alto da colina, com a atenção de toda a tropa, definitivamente, não aconteceu. Não passa de ficção.

Aliás, a imagem imortalizada no quadro de Pedro Américo e gravada na mente de todos os brasileiros, além de ser ficcional, não passa de um evento menor no processo de independência do Brasil. Com grito ou sem grito, a libertação não aconteceu ali. Antes, o Brasil já tinha uma constituinte convocada, que seria resposável pela criação uma lei independente da portuguesa. A criação de uma constituição é marco do nascimento de qualquer país.

Entretanto, como nada é por acaso, o fato de lembrarmos do 7 de setembro como o dia da nossa independência só pode ter atendido ao interesse de alguém.

Sobre este assunto escreverei amanhã.

A ideologia de um grupo tem muito haver com os interesses que ele representa. Desta maneira, o PSDB, partido social-democrata no nome, praticava uma política econômica neo-liberal quando estava no poder. Hoje, o Partido dos Trabalhadores, de origem socialista, faz a mesma coisa. Acontece que o governo, seja ele qual for, estará nas mãos dos banqueiros, pois são eles que patrocinam as eleições. Sendo assim, os juros continuarão altos e os lucros dos bancos também.

No nosso processo de independência existiu também este tipo de fisiologismo. Em 1820 explodiu um movimento em Portugal, a Revolução Liberal do Porto. A rebelião, levada a cabo sobretudo por comerciantes, desejava implantar um governo liberal, com a criação de uma constituição que limitasse os poderes absolutistas do rei D. João VI. Tudo de acordo com as idéias do liberalismo, ideologia cada vez mais forte na Europa desde a Revolução Francesa.

O movimento do Porto era liberal para Portugal. Em relação ao Brasil se colocava de maneira bem diferente. Como os comerciantes portugueses tinham perdido muito com a abertura dos portos de 1808 e com os tratados feitos com a Inglaterra em 1810, eles queriam a recolonização do Brasil. Exigiam a volta de D. João VI – que obedeceu prontamente e regressou a Portugal em 1821 – e o fim de todas as medidas favoráveis à ex-colônia.

Mas não foi só o movimento do Porto que tinha duas caras: liberal lá, conservador aqui. Veja a situação de D. Pedro, o príncipe português era obviamente conservador e contrário ao liberalismo da Revolução do Porto. Mas liderou o movimento de independência do Brasil, que se fortaleceu a partir das tentativas recolonizadoras dos portugueses. D. Pedro I garantiu seu poder por aqui. Afinal, é melhor um pássaro na mão do que dois voando.

Se você está se perguntando: “E a luta pela liberdade, o amor pela pátria, onde fica isto tudo? E a ideologia?”

Não se engane, no poder a ideologia só tem vez se for conveniente, senão, é jogada no lixo.

Muito antes do 7 de setembro a independência já insinuava seus primeiros passinhos. De fato, no momento da separação defiinitiva de Portugal, em 1822, o Brasil já tinha deixado de ser colônia.

Desde a fuga da família real portuguesa das tropas napoleônicas e sua instalação no Rio de Janeiro, em março de 1808, a colônia vivia uma situação sui generis: era a sede do Reino de Portugal. Além disto, não existia mais o pacto colonial, pois este havia sido detonado, em dois atos, pelo então príncipe-regente  D. João VI: A abertura dos portos brasileiros às nações amigas de Portugal e os tratados de 1810 realizados junto à Inglaterra.

Entretanto, o fim da colonização portuguesa veio em 1815. Pressionado pelo Congresso de Viena, que considerava ilegítimo seu poder exercido a partir da colônia, D. João VI  determinou a elevação do Brasil a Reino Unido a Portugal.

Quando d. Pedro I declarou o Brasil independente, legalmente se tratava da separação de duas partes de um mesmo país. Portanto, algo muito diferente das rebeliões coloniais contra a metrópole, ocorridas em outras partes da América.

Estamos em plena semana da pátria. Quinta-feira próxima comemoraremos o 7 de setembro, dia da Independência do Brasil. A maior parte dos brasileiros lembra desta data como mais um feriado do calendário. Uma das muitas celebrações que não sabemos ao certo o motivo de sua existência. 

No Brasil temos três datas dedicadas ao civismo: o feriado desta semana; o dia  21 de abril – dia do mártir da Independência, Tiradentes e o dia 15 de novembro – dia da república. Os três sumariamente ignorados por grande parte da população.

Por isto, de hoje até sexta, só se tratará de independência do Brasil por aqui.