Caríssimo seu Fernando, 

Cresci numa área barra-pesada de minha cidade. O lugar era uma verdadeira Woodstock . Todos os tipos de doidos apareciam, compravam e consumiam por ali mesmo a mercadoria. Eu e meus amigos brincávamos — éramos uns 20 moleques — em meio aos negócios e ao consumo da rapaziada. 

Chegando a adolescência alguns de nós passaram a se encantar por aquela maneira de viver a vida. Ficou comum ouvir falar de fulano que se envolveu com a “parada errada”, de beltrano que passou a “formar com os caras” e de sicrano, filho de dona fulana, que morreu porque pegou o “bagulho” e não pagou.

Hoje consigo ver com mais clareza o que acontecia naqueles dias. Quem sobreviveu sem passar pela marginalidade tinha um fator diferenciador — seus pais. Os que escaparam foram aqueles que tinham os pais mais exigentes. Os que hoje estão vivos e sem problemas com a  lei, são aqueles cujos pais criavam regras e limites que não podiam ser descumpridos. Estes pais tinham muito trabalho, mas faziam sua parte.

A minha mãe é um excelente exemplo deste tipo de pai. Mesmo trabalhando o dia inteiro ela sempre sabia o que eu fazia de errado. Não sei como, é verdade. Talvez ela seja agente da CIA e nunca nos contou. Qualquer dia destes eu pergunto.

Uma vez fui jogar bola com alguns dos “caras” da “parada errada”. Quando cheguei em casa, veio logo a pergunta:

— Onde você estava?

— Fui jogar bola — respondi tentando cortar o assunto.

— Com quem?

— Com meus amigos — tentei.

— Tem certeza que você estava com seus amigos? Acho que não…

A partir daí eu já sabia que estava ferrado e era melhor contar a verdade. Contei e ouvi muito. Minha mãe quando briga fala sem parar. Foram dias e dias falando, falando  e falando. Fora o castigo e a surra. Os “caras” até me chamaram para jogar bola com eles outras vezes, mas não dava para ir. Eu não era lá muito obediente, só que não dava para brincar com a minha mãe.

Seu Fernando, minha mãe não colocava panos quentes no que eu fazia de errado. Já o senhor deu mal exemplo. Como pai de um dos que foram presos por jogarem fumaça de extintor de incêndio no rosto de prostitutas, nunca poderia ter afirmado que “Eles não fizeram nada demais. Foi apenas uma brincadeira de crianças. Qualquer um já passou por isto quando era adolescente”.

Seu filho não é mais criança, seu Fernando. Ele tem 19 anos, já tem carteira de motorista e é plenamente imputável. Ele é adulto, cometeu um crime e vai pagar por ele, mesmo que minimamente. Aliás, o Fernandinho é tão adulto que admitiu seu erro, algo que o senhor não foi capaz de fazer.

Seu Fernando, jogar fumaça de extintor de incêndio na cara das pessoas não é brincadeira. Vamos imaginar que uma prostituta de 19 anos pegasse um extintor de incêndio e descarregasse no senhor. Qual seria sua reação? O senhor sorriria e diria que era apenas uma brincadeira de adolescentes?

Seu Fernando, eu imagino o porquê do senhor negar o crime e a responsabilidade de Fernandinho. Talvez algum sentimento de culpa por não ter dado uma educação melhor. No entanto o senhor deveria ter apoiado a autoridade que prendeu seu filho e os outros dois bobalhões. Se o senhor tivesse agido desta maneira, teria dado um exemplo de caráter e firmeza  para o Fernandinho, para os dois bobalhões e para outros pais de bobalhões que existem por aí.

Seu Fernando, por aqui me despeço. Deixo à sua disposição este espaço, caso o senhor necessite de algum conselho sobre como, simultaneamente, amar e ser firme com seus filhos. Escreva sua dúvida que eu repasso à minha mãe. Tenho certeza que ela ficará feliz em ajudá-lo.

Leonardo Chermont

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_ Para a matéria sobre os bobalhões do extintor de incêndio, clique aqui.

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