Novembro 2007


Aqui em Niterói, a orientadora educacional do colégio MV1, Tereza Carmela Peixoto, acionou na justiça uma aluna por calúnia e difamação.  A aluna, que tem 9 anos, teria enviado um e-mail para a seção “fale conosco” do site do colégio, referindo-se a orientadora como “uma vagabunda”.

O colégio disse que não sabia de nada. Os pais juraram que a menina não sabe usar o e-mail. Duvido, já que as escolas ensinam a utilizar as ferramentas da internet desde a alfabetização.  Os pais disseram também que a menina é hiperativa, o que não tem nada haver com o caso.

A ofensa ocorreu no dia 20 de setembro. Em três meses os pais e o colégio não ficaram sabendo de nada disto?  A orientadora educacional ficou sofrendo em silêncio por todo este tempo? Sei não. Acho muito difícil.

A experiência me diz que uma coisa destas é rapidamente divulgada pelo rádio corredor de qualquer colégio. O que eu imagino ser mais provável é que a orientadora procurou o colégio e que os administradores tentaram colocar panos quentes. Daí, deu no que deu.

O enredo é sempre o mesmo. Os pais negam que seus filhos possam ter ofendido alguém. Os colégios, mesmo com provas contundentes das ofensas cometidas pelos alunos, omitem-se e  sutilmente sugerem uma deminssão,  caso o profissional procure a justiça.

Uma pessoa ofendida por outra pode procurar a justiça. Nada impede, nem mesmo a idade do ofensor. A atitude da orientadora educacional é legal e justa. A justiça determinará quem tem a razão. Se a menina enviou o e-mail, a justiça vai dizer como os pais devem pagar pelas atitudes de sua filha. Se a menina não mandou o e-mail, a professora vai ter que se retratar pela acusação injusta.

Parabéns à orientadora educacional Tereza pela coragem de procurar a justiça.

Será que ela vai ser demitida pela escola por procurar seus direitos?

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_ Para ler a matéria do jornal extra sobre o caso, clique aqui.

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Tv ambiente ligada no jornal da Record. De repente vem a notícia:

Hoje, em Marília (SP), um pit bull atacou várias pessoas. O cão ameaçava quem passasse na rua e a polícia foi chamada para tentar controlá-lo. O dono foi encontrado e levou o animal para casa, sem registro de ocorrência pelos policiais.

Finalzinho de reportagem, a jornalista pergunta para o dono do pit bull:

— Seu cachorro já havia apresentado este comportamento violento antes?

— Não. Ele é manso, nunca atacou ninguém. Aliás, quem cuida dele é a minha sobrinha, que tem sete anos.

Daí ele vira para o cachorro e fala:

— Vem. Vamos embora Hitler.

Em todos estes anos como professor de história, foi a primeira vez que vi alguém se referir a Hitler como manso.

 

Brian May, guitarrista do Queen, foi escolhido como reitor da Universidade John Moores, de Liverpool na Inglaterra. Ele assume no início do ano que vem.

No início deste ano, May havia completado um doutorado em astrofísica e lançado um livro sobre a história formação do universo. Além destas atividades, o guitarrista participou da uma turnê do Queen em 2005 e prepara o disco novo da banda para 2008.

Um dos melhores guitarristas de todos os tempos, líder, ao lado do o falecido Freddie Mercury,  de uma das maiores bandas de rock de todos os tempos, escritor, doutor em astrofísica e agora reitor.

E você ainda fica reclamando da falta de tempo, né não?

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_ Para saber mais de Brian May como reitor, clique aqui.

_Para saber sobre o disco novo do Queen, clique aqui.

 

Eric Nadelstern é o secretário de educação da cidade de Nova York. Ele está implementando uma reforma no sistema de ensino daquela cidade, baseada em um dos conceitos mais fundamentais da sociedade atual — a meritocracia. Ou seja, professores e alunos que alcancem melhores resultados, devem ser premiados. Simples, não?

Na educação esta idéia costuma não ser bem vista. Alguns dizem que ao premiar uma aluno ou um professor, constrange-se os demais e fere-se a isonomia.

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_ Para ler a entrevista de Eric Naldestern na VEJA, clique aqui.

Zezinho é presidente do clube da vadiagem. No ano passado, esteve em todas as recuperações bimestrais. Foi aprovado em algumas matérias e reprovado em outras. Cursou a recuperação final e não passou. Ficou em dependência em duas disciplinas que cursou este ano, juntamente com a série regular. Este ano, Zezinho ficou em todas as recuperações bimestrais e esteve na final. Não satisfeito, ficou em recuperação dependência. Zezinho conseguiu o impensável, reprovou. Coitadinho.

Você deve estar pensando: “bem feito, perdeu o ano”. 

Que isto? Que papo bobo é este de perder o ano. Há sempre um jeitinho de um aluno que não sabe nada passar à série seguinte. O texto da LDB é tão fantástico, que eu resolvi reproduzi-lo abaixo:

Art. 24.(…)

  II – a classificação em qualquer série ou etapa, exceto a primeira do ensino fundamental, pode ser feita:

(…)

 c) independentemente de escolarização anterior, mediante avaliação feita pela escola, que defina o grau de desenvolvimento e experiência do candidato e permita sua inscrição na série ou etapa adequada, conforme regulamentação do respectivo sistema de ensino;”

O Zezinho vai passar de ano. É só procurar uma escola e pedir uma prova de avaliação de escolaridade. Nada impede de fazer várias avaliações em várias escolas ao mesmo tempo. Se ele fizer isto em uma das poucas escolas sérias que existem, ele será avaliado e classificado de acordo com seus conhecimentos e capacidade. Se a avaliação for aplicada por uma escola que está desesperada por matrículas, com certeza ela vai classificá-lo para a série seguinte. Fácil, fácil. Mole, mole.

Sabe quem fiscaliza o nível desta prova de avaliação? NINGUÉM. A escola faz o que quer.

E o Zezinho não precisa se preocupar em ficar longe de seus amigos. Ele pode pedir sua transferência logo no início do ano letivo e voltar a escola que o reprovou. Basta que a escola o aceite de volta. Zezinho não deve se preocupar com a possibilidade da escola não aceitá-lo. Os colégios andam tão desesperados por matrículas que provavelmente vão desenrolar o tapete vermelho para você. De quebra você poderá rir na cara dos professores, aqueles malvados, que o reprovaram no ano anterior.

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_ Para o texto integral da Lei de Diretrizes e Bases da educação, clique aqui.

 

Juquinha é adepto inveterado da vadiagem. Sendo assim, esteve em todas as recuperações bimestrais, passando em algumas matérias e reprovando em outras. Ao final do ano, Juquinha foi à recuperação final, entretanto, diferentemente do Joãozinho do post anterior, ele não passou. Coitadinho.

Esta é a sua situação ou a do seu filho? Bateu o desespero? Calma. Seus problemas acabaram! A lei diz que o sujeito pode passar de ano através da progressão parcial. Vulgarmente conhecida como dependência, a progressão parcial é obrigatória no ensino público e opcional nas escolas particulares.

Quando o colégio tem a mesma série em dois turnos é fácil. O aluno em dependência que estuda no turno da manhã, volta à escola, à tarde, para cursar a matéria em que ficou reprovado. Não havendo a mesma série em dois turnos, a escola pode contratar um professor para a dependência. Funciona da mesma maneira, o aluno da manhã volta à tarde para cursar a matéria em que ficou reprovado. A diferença é que não existe uma turma, apenas ele e o professor.

O problema neste segundo esquema é o valor da mensalidade de dependência. O piso salarial da minha cidade é de R$ 9,32 de 5ª à 8ª série. Para um aluno em dependência na 6ª série, o colégio teria que pagar R$ 139,80 ao professor (3 aulas por semana, por cinco semanas).  

Para os pais a conta é bem diferente. Se normalmente o pai paga, digamos, R$ 300 para que seu filho estude 10 matérias, na dependência em uma matéria ele desejará pagar 10%, R$30. Nenhum colégio pode receber R$30,00 e pagar R$139,80.  A escola precisaria no mínimo de 5 alunos para garantir o salário do professor, sem contar outros custos e lucro. Geralmente as turmas de dependência tem um, no máximo dois alunos. É muito difícil encontrar 5 alunos em dependência, na mesma série, na mesma disciplina.

É aí que os diretores de escolas deixam a criatividade fluir  Já vi professor ser contratado para dar aulas de dependência para todas as séries ao mesmo tempo. Ele tinha três aulas semanais (2 horas e 30 minutos) para ensinar todo o conteúdo para os alunos em dependência da 5ª, 6ª, 7ª e 8ª séries e 1º, 2º anos. Imagine o quanto se ensinava e o quanto se aprendia em uma aula como esta.  Ao final deste ano, perguntei ao professor sobre o rendimento dos alunos. Ele me disse que todos eles tinham sido aprovados. Fantástico, não?

Em outra escola, testemunhei o seguinte diálogo ocorrido em agosto daquele ano. Decorridos 5 meses daquele ano letivo, vira o diretor e fala para o professor do 2º ano:

— Fulano ficou em dependência na sua matéria. Você tem que colocar uma nota para ele, ok?

— Como assim nota? Não deveria haver aulas? Ensino, aprendizagem, conhecimento? Estas coisas?

Ao que disse o diretor:

— Olha rapaz, não atrapalha.  Aqui é assim. Manda o aluno fazer um trabalhinho e coloca a nota aí.

Em várias escolas — públicas e particulares —  a dependência é feita deste modo. Trabalhinhos que substituem um ano letivo inteiro. Depois querem saber o motivo dos péssimos resultados dos alunos brasileiros nos testes internacionais. Vão mal porque não estudam. Não estudam porque não precisam.

Com honrosas e raríssimas exceções — tão raras que eu nunca vi —  a maioria das escolas faz da dependência uma maneira de conseguir as matrículas dos alunos que foram reprovados em outras escolas, ou de garantir que seus alunos não fujam para outros colégios.

Vai uma regrinha para avaliar a escola onde você ou seu filho estuda:

Colégio sério não tem dependência.

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_ Para o texto integral da Lei de Diretrizes e Bases da educação, clique aqui.

 

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Na LDB, o artigo nº 24 dispõe sobre as maneiras para um aluno progredir (passar de ano). A primeira e mais antiga delas é a promoção. Basicamente o aluno estuda um pouquinho e passa de ano. O estudante pode passar direto — poucos heróis fazem isto — ou usar as recuperações. 

As recuperações são obrigatórias e preferencialmente paralelas (a cada bimestre). Desta maneira caso não alcance a média — geralmente 6,0 — naquele bimestre em uma, duas ou até em TODAS as matérias, o aluno pode fazer a recuperação e passar.

Se mesmo assim ele se arrastar o ano todo e não tiver alcançado a média anual necessária, vai à recuperação final e passa. Geralmente esta recuperação é composta de uma única prova por matéria, cujo resultado substitui a avaliação de todo o ano letivo. Nos colégios mais sérios existe um limite máximo de matérias nesta recuperação final (geralmente três). Nas escolas menos sérias vale tudo.

Tudo o que eu informei até aqui é a lei. Se pensarmos na prática o quadro fica ainda mais terrível. Estas provas são feitas com o conteúdo mínimo, do mínimo, do mínimo. É a raspa do tacho. A recuperação final, nem se fala. Imagine o nível de uma prova realizada na mesma época em que as escolas — públicas e privadas — estão à caça de alunos. Lembre-se: mais alunos inscritos no ano seguinte garante verbas (escolas públicas) ou matrículas e mensalidades (escolas particulares).

Vamos a uma historinha. 

Joãozinho é vadio que só. Adepto da vadiagem, Joãzinho não estuda nada o ano inteiro, mas ao final do bimestre faz as recuperações paralelas. Passa em algumas matérias e reprova em outras. Chega o final do ano, Joãozinho, mesmo que vadio, não quer reprovar, então vai à recuperação final e passa. Simples. Fácil.

Realmente é promoção. Quem quiser leva.

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