Mais um feriadão e os jornais lançam aquele mar de estatísticas que nos dizem pouco sobre o caos do trânsito brasileiro. Não sei quantos acidentes, centenas de mortes.  Tudo enfeitado por cenas de carros distorcidos e pessoas chorosas purgando a dor de seus entes queridos falecidos.

O normal dos feriadões e finais-de-semana adquiriu os contornos de uma tragédia maior (veja a que ponto chegamos, tragédias maiores e menores) com o acidente, que matou 27 pessoas, ocorrido na última terça-feira em Santa Catarina.

Não foi o acidente mais mortífero já ocorrido no Brasil. Nem mesmo pode-se dizer que foi a pior tragédia das estradas de Santa Catarina, pois nosso trânsito é eficiente em ceifar vidas. O governo brasileiro estima em 35.000 o número de mortos nas estadas a cada ano .  Morre-se menos na guerra do Iraque,  25.000 por ano. Este acidente não foi o único, nem o pior já ocorrido no Brasil, mas é o mais pertubador dos últimos anos.

A tragédia, como uma peça de teatro, teve dois atos. Dois acidentes consecutivos, algo aparentemente fora do normal, no entanto representam o comum de nosso tráfego. No primeiro acidente temos uma situação bem conhecida. Em uma estrada de pista dupla, um motorista deseja ultrapassar o carro mais lento à sua frente. Vem uma curva e o sujeito, com pressa, tenta fazer a ultrapassagem ali mesmo. Quando estou dirigindo e vejo isto por aí, sempre penso:  “e se viesse um ônibus na direção contrária?”. Pois é, desta vez o ônibus estava lá e deu de frente com a carreta conduzida pelo motorista imprudente. Por causa da pressa de chegar a algum lugar,  uma monte de gente não chegou em casa depois do trabalho (o ônibus transportava trabalhadores rurais).  O motorista apressadinho? Morreu.

O segundo acidente, à primeira vista, parece novidade.  Álcool, falta de sinalização, más condições das pistas, falta de policiamento,  nada disto pode ser alegado aqui. O motorista da segunda carreta havia sido parado por uma blitz na estrada e avisado de que havia uma retenção causada por uma batida no caminho. Dezenas de pessoas se aglomeravam no local do acidente: bombeiros, policiais, voluntários, curiosos. Além de uma barreira policial e de um congestionamento de 2 km (a pista estava fechada). 

Veja se você reconhece a situação. Um enorme engarrafamento. O motorista, nervoso e com pressa resolve dar um jeitinho. Ele é esperto, os outros são otários. Vai pegar a contra-mão e fugir do congestionamento. “Que beleza, não tem ninguém vindo mesmo, a pista está fechada, pelo menos eu fico lá na frente e aí, quando a pista abrir serei o primeirão.”  Como não tinha ninguém vindo, foi pegando velocidade.

Quando chegou a barreira, estava a 100km. Passou direto e por cima das pessoas que estavam tentando ajudar a resgatar os feridos do primeiro acidente. Matou um monte de gente. Qual o motivo? Ele alega que o freio falhou, mas se ele estivesse paradinho no congestionamento o freio não seria necessário. E mais, uma carreta a 100km na contra-mão, não há freio que segure. Desta vez o motorista apressadinho não morreu, mas o pessoal da cidade onde está internado quer linchá-lo.

Pressa = 27 pessoas mortas, 90 feridos.

Você tem pressa?

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_ Para as estatísticas do trânsito no Brasil, clique aqui.

_ Para a matéria sobre o acidente do dia 9, clique aqui.

_ Para a notícia sobre o maior acidente de trânsito já ocorrido no Brasil, clique aqui.

_ Para a página do grupo que conta o número de civis mortos na Guerra do Iraque, clique aqui.

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