Outubro 2007


 

Os políticos fizeram a festa na apresentação do Brasil como sede da copa de 2014. O evento, uma mera formalidade já que a escolha do Brasil era certa, contou com a presença de nada menos do que o presidente da República, 12 governadores, 3 ministros e um senador. Era o trem da alegria.

A politicalha está assanhadinha pois vislumbra uma oportunidade única no horizonte. Veja o que aconteceu no Pan do Rio este ano — na candidatura o orçamento total do evento era de R$ 800 milhões, no final gastou-se R$3,8 bilhões. E ningúem vai preso! Na copa a farra promete ser bem maior. O amigo leitor imagine o quanto de dinheiro não vai rolar nas capitais que serão sedes do evento.

Não é a toa que os governadores marcaram ponto na festinha da Fifa, tolerando desafetos e membros de partidos rivais —PT, PSDB, PMDB, DEM, representados. Todos ali querem tomar parte na festa das verbas ilimitadas e liberadas em caráter emergencial. Não sou profeta, mas o que vai acontecer é o seguinte: as obras vão atrasar e vai ser necessária uma liberação urgente de recursos. O resto você já sabe.

O Financial Times disse que o Brasil não tem capacidade de fazer a Copa. Numa euforia nacionalista, a imprensa brasileira caiu de pau nos ingleses, afirmando que o Brasil é altamente preparado para realizar a copa. Não discordo, há dinheiro e qualificação técnica no Brasil para isto. Entretanto os ingleses não estão totalmente errados, o custo social será altíssimo.

O que os ingleses não sabem é que os brasileiros são useiros e vezeiros em manter as aparências. Em 1831, o governo regencial assinou uma lei que acabava com o tráfico negreiro. Diante do espanto geral corria à boca pequena que a lei tinha sido feita “para inglês ver”. De fato o comércio de escravos só foi abolido muito tempo depois, em 1850 (lei Eusébio de Queirós). A expressão popularizou-se.

Cabe como uma luva para a Copa de 2014.

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_Vale a pena realizar copas, olimpíadas e panamericanos? Esta mantéria tenta responder a esta pergunta. Para ler, clique aqui.

_Para a matéria do Financial Times desancando o Brasil como sede da copa, clique aqui (em inglês).

_Para a matéria sobre a cpi do desvio de verbas no Pan, clique aqui.

_Para um blog  sobre o lado “b” do Pan 2007 e da copa de 2014, clique aqui.

O papa Bento XVI é muito produtivo em criar polêmicas. Os muçulmanos se indignaram quando ele utilizou em um discurso, uma frase de um imperador bizantino que ligava a religião de Maomé à violência. Em outro discurso, em Auschwitz, atribuiu os crimes do nazismo contra os judeus a um grupo de criminosos, como se o povo alemão tivesse sido enganado por Hitler. Recentemente o papa  afirmou que o segundo casamento é uma praga do ambiente social. Este papa é do barulho.

Desta vez, Bento XVI se envolveu polêmica ao acompanhar a beatificação de 498 religiosos mortos durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939) , realizada no Vaticano neste último domingo. A beatificação em massa, a maior já feita pela Igreja Católica, foi realizada dias antes da votação no congresso espanhol da Lei de Memória Histórica, que visa reabilitar e indenizar as vítimas da Guerra Civil e do governo de Franco. Um arcebispo espanhol já havia se pronunciado contra a lei e a beatifiação parece ser uma manobra política para evitar sua aprovação.

As duas ações, a beatificação e a votação da lei, reacenderam as discussões sobre as disputas entre os lados envolvidos na Guerra Civil Espanhola. Em 1936, após uma eleição acirrada a esquerda assumiu o governo da Espanha. A Igreja se opôs aos novos governantes, conclamando os católicos a uma revolução. Por causa da posição da Igreja, os esquerdistas perseguiram os católicos de maneira implacável: incendiaram mais de uma centena de igrejas e milhares de religiosos foram cruelmente executados.

Contra o governo republicano, formou-se uma coligação de forças chamada  “Movimento nacional”. O grupo, composto por monarquistas, católicos, membros do exército, fascistas e latifundiários, foi liderado pelo general Francisco Franco. Em 1939, contando com o apoio militar nazista, os nacionalistas venceram a guerra contra os republicanos e fundaram um estado fascista na Espanha.

Ao chegar ao poder o general Franco perseguiu de maneira igualmente implacável os republicanos. Nos primeiros anos de franquismo cerca de 50.000 esquerdistas foram fuzilados. As associações de vítimas da ditadura estimam em  2 milhões o número total de mortos pelo regime fascista espanhol. Franco governou a Espanha por 36 anos e sempre contou com total apoio da Igreja Católica.

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_ Para mais sobre a beatificação dos mártires espanhóis, clique aqui. 

_ Para a posição do bispo espanhol contra a lei de Memória histórica, clique aqui.

_Para saber mais sobre a Guerra Civil Espanhola, clique aqui.

_Para ler sobre as polêmicas do papa, clique nos links a seguir: papa e os muçulmanospapa e os crimes do nazismopapa e o segundo casamento.

 

Quando li “O menino maluquinho” me identifiquei de cara. Ganhei o livro de meus pais no natal de 1981, tinha nove anos e a capa me chamou a atenção de cara — um menino biruta que usava panela na cabeça para dizer que era general. Eu também usava, não uma panela, mas um escorredor de macarrão de minha mãe. Os furos do tal escorredor eram em formato de estrela. Daí para virar um tipo de comenda militar na minha cabecinha fértil, um pulo.

Além da panela e das estripulias do maluquinho, que muitas vezes pareciam ser um relato das minhas próprias, me identifiquei com o livro pois ele se comunicava diretamente comigo.  Não era uma fábula, nem um conto de fadas, era a minha história que estava ali. Eu era o personagem central e adorava aquilo.

No último dia 24, Ziraldo completou 75 anos. Passou quase desapercebido. Não deveria, pois este é um brasileiro que dá orgulho aos outros brasileiros. Parabéns pelo seu aniversário Ziraldo. Parabéns e obrigado por entender, mais do qualquer outro,, o pensamento de uma criança e ter feito este leitor mais feliz.

Ah, já ia me esquecendo. Vasculhei meus guardados e descobri que ainda tenho meu exemplar do menino maluquinho. Está velhinho, mas ainda em boas condições.

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_Para a página oficial do Ziraldo, clique aqui.

_Para a página do Menino Maluquinho, clique aqui.

Mal o temporal começou aqui no Rio e um fulano apressou-se em dizer— “Olha o que aquecimento global está fazendo…”. Espere um pouco seu fulano, aquecimento global? Estas chuvas caem por aqui desde sempre. Eu mesmo já nadei — e quase me afoguei — algumas vezes nas enchentes causadas por elas aqui na minha cidade. Uma coisa é aquecimento global, outra, bem diferente, é o descaso local.

Quem mora no RJ tem sempre uma história de chuva. Moro em Niterói e tenho várias, afinal todos os anos os habitantes desta terra esperam ansiosos pela temporada de enchentes. Ansiosos para ver se você vai ficar ilhado em algum lugar, se seu carro vai ficar alagado, se a encosta vai deslizar. Estas coisas próprias da estação das chuvas. Aqui em Niterói um dos alagamentos mais famosos e antigos é o da região do Estádio Caio Martins. Todo mundo que mora por aqui já sabe — choveu, encheu.

Eu já teve o prazer de ficar parado ali algumas vezes. Já tentei passar, quando tinha uns dez anos e quase me afoguei. Meu carro já boiou na enchente. Este alagamento é tão antigo, que vou fazer uma proposta para a prefeitura decretá-lo patrimônio histórico da cidade. Poderia até fazer parte do roteiro turístico e do calendário de eventos. Imagine a propaganda. “Você poderá vislumbrar no local o espetáculo das águas e a maravilhosa luta do ser humano frente a força da mãe natureza”.

Neste momento começa um novo temporal. O que vai acontecer na cidade? Já sabemos há muitos anos. Enchentes, alagamentos, mortes. Nada disto tem haver com aquecimento global e sim com a falta de ações competentes dos governantes em resolver o problema do impacto das chuvas na cidade.

Ontem, depois de eu ter escrito sobre a Suíça, um suíço foi preso no Galeão sob a acusação de racismo. Ele estava revoltado com o atraso do vôo e o mau atendimento de uma funcionária. Por isto ele usou os adjetivos “negra” e “macaca” para se dirigir à atendente da companhia aérea.

Eu preferia a época em que lembrar de Suíça e negro era para falar de chocolate.

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_ Para saber mais sobre a prisão do suíço no Rio, clique aqui.

_ Se você não leu o outro post sobre a Suíça, clique aqui.

O cartaz acima veio da campanha do Partido Popular da Suíça (SVP), vencedor das eleições legislativas do último domingo. A principal proposta de campanha do partido é a  deportação de estrangeiros cujos filhos tenham cometido crimes. Ora, por quê?  “Para ter segurança”, diz o cartaz. Na visão dos membros do SVP as cadeias  estão abarrotadas por causa dos imigrantes. Um quinto da população suíça é de estrangeiros e o governo estima em 70% a proporção de imigrantes na população carcerária.

Para os membros do partido popular a conta é simples. Como a população carcerária é majoritariamente imigrante, a expulsão de estrangeiros diminuiria a criminalidade e aumentaria a segurança. Racismo puro, digno de Hitler ou Mussolini. Para a proposta xenófoba virar lei precisa ser submetida à consulta popular. Sendo assim, o partido deveria recolher 100 mil assinaturas até janeiro de 2009.  Até semana passada o SVP já havia reunido 200 mil.

Nas aulas sobre nazismo, os alunos sempre  perguntam como Hitler enganou a população da Alemanha e criou um regime tão terrivelmente racista. Respondo: ele canalizou os desejos racistas da população. Ninguém enganou ninguém. Lembre-se: o nazismo  chegou ao poder pela via legal e democrática . O partido passou a ser o maior da Assembléia da Alemanha, com 230 deputados de um total de 584. Não foi à toa que Hitler se tornou chanceler em janeiro de 1933.  A população o escolheu. Da mesma maneira que os suíços elegeram o Partido Popular Suíço. Elegeram as ovelhas brancas que devem expulsar as ovelhas negras.

Será possível alguém ter sido enganado pelo cartaz acima?

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_ Para reportagem sobre as eleições na Suíça, clique aqui.

_ Para reportagem sobre a lei de deportação do SVP, clique aqui.

_ Há pouco tempo, postei sobre a vitória de um partido nazista na Alemanha. Para ler, clique aqui.

_ Para a biografia de Hitler, clique aqui.

Tal pai tal filho 

Diz a sabedoria popular: A fruta não cai longe da árvore. Ou então: cara de um, focinho do outro. Ou ainda: tal pai, tal filho. Não tem jeito, o filho é igual ao pai. Esta lógica imbatível da natureza se torna clara, cristalina, nos momentos em que estou frente a frente com os progenitores dos habitantes de minhas salas de aula.

Você já viu uma criança repetindo tudo o que os pais dizem? Pois quando os bebês crescem, repetem muito mais do que as palavras paternas. Gestos, postura, personalidade e caráter são moldados na forma de nossos pais. Muitas vezes quando o pai aparece na esquina já sabemos quem é seu filho. É claro, o tipo é parecido, mas é na alma que as marcas da herança paterna são mais evidentes. Filhos de pais educados são educados, filhos de mal educados são mal educados.

Esta pequena reflexão empírica traz uma conclusão. Se você é pai, é sua responsabilidade cuidar da educação de seu filho. É seu nome que está em jogo. Não adianta pensar que você pode relaxar e nós, da escola, vamos dar jeito em tudo. Saiba você que todas as bobagens que você falar e todas as atitudes nada exemplares que você tomar serão repetidas em todos os detalhes por seu filho. Lamento informar,  esta responsabilidade você nunca poderá dividir com ninguém.

Quanto aos filhos, todos nós, podemos ajudar honrando a educação e o nome que nossos pais nos deram.

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_  Dia destes, a Dani, do Todo mundo quer confete, escreveu um post muito interessante sobre este mesmo tema, para ler, clique aqui.

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