Tintim na África talvez tenha sido a revista em quadrinhos que mais li na minha vida. Era a única do personagem que eu tinha, por isto lia e relia sem cessar. Nela Tintim, um repórter belga, viajava para o Congo na compania de seu cão Milu. Lá eles desbaratavam uma quadrilha de contrabandistas de diamantes liderada por ninguém menos do que Al Capone.

Nesta aventura Tintim se tornou feiticeiro de uma tribo africana, quase foi devorado por crocodilos, explodiu um rinoceronte com dinamite, entre outras peripécias politicamente incorretas atualmente, mas que chegaram às mãos de um menininho que acabara de aprender a ler.

 

Além de Tintim, gostava muito do Tarzan. Eu adorava seu grito no seriado, vivia repetindo dentro de casa. Outro dos meus heróis preferidos era o Fantasma, um justiceiro inglês que vivia na selva, salvando os  nativos sempre que precisavam.

Assim foi moldada minha visão de África. Selva, animais perigosos, tribos primitivas cujos membros necessitavam da ajuda de homens brancos para resolver seus problemas. Esta visão era corroborada pelas produções hollywoodianas, sempre enfocando o continente desta forma.

De uns tempos para cá as coisas mudaram. A consciência ecológica dificilmente permitiria um rinoceronte explodindo em um gibi. Além disto, estes heróis criados antes da descolonização afro-asiática (décadas de 1950 e 60) não fazem o menor sentido nos dias atuais. A África atual não comporta este tipo de heroísmo colonialista. A África atual é urgência em estado puro.

 

No filme Diamantes de Sangue, dirigido por Edward Zick (de O Último Samurai) as dificuldades do continente africano ficam patentes. Contrabando de diamantes, Violência, corrupção, doenças, rapto de crianças, guerra e fome.

A total inviabilidade da construção de nações em território tão instável política e financeiramente se conjuga ao pessimismo de Danny Archer(Leonardo DiCaprio em atuação facilmente oscarizável). Ele é um contrabandista de diamantes que não vê soluções para a África. Diferentemente dos heróis de outrora, Archer só pensa em se dar bem. Encontrar um diamante raro e dar o fora o mais rápido possível do continente.

Este pessimismo é equilibrado pelo otimismo da repórter vivida por Jennifer Connelly e complementado pelo desepero de um pai que é separado de sua família pela guerrilha de Serra Leoa.

O filme faz coro com o Jardineiro Fiel, Hotel Ruanda e Syriana (este sobreo o Oriente Médio). A ajuda não vem, porque não interessa às potências que ela vá. Engolimos a seco quando o africano pergunta a jornalista: “Quando ficarem sabendo o que acontece aqui, o povo de seu país mandará ajuda, certo?” Ao que ela responde: “Provavelmente, não.”

This is Africa.

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