Flávia Maia é uma colega de profissão. Não a conheço. No entanto Érica, uma amiga em comum, me intimou a colocar este texto de Flávia no Blog.

Que bom. Pois o texto é o retrato fiel da vida dos professores hoje em dia.

“Professores não têm de ser engraçados, artistas de circo, ou animadores de festa. Primeiro que não se ganha ou se estuda para isso, segundo se a aula for mais ou menos animada isso não interfere na qualidade do trabalho. Hoje tudo é propagandeado em nome do prazer, até atividades que tenham o objetivo primeiro de instruir, trocar experiências como deveriam ser as atividades escolares. Se lá também há prazer, ótimo, lucro, já que é onde se passa boa parte do dia. Mas não deveria ser regra.

Em época em que tudo é interpretado como coação ou constrangimento e, até se criaram órgãos que legitimam isso, fica difícil ser professor. A partir do momento em que outros profissionais, na maior parte do tempo, lida com outros que ali estarão com o intuito de trabalhar. O professor já tem contra ele a desvantagem de estar lidando com pessoas que não vêem sua estada na escola como profissão, apesar de serem convidados a isso o tempo inteiro.

Se não se brinca, é-se tido como ranzinza (ou coisa pior!); se brinca, é-se tido como pouco sério (ou coisa pior!). Há que se ensinar, há que se “passar o conteúdo“, há que ser amigo, há que ser perfeito! Mas onde o aluno entra nessa história?

Ele poderia ser apenas aluno que já estaria de bom tamanho. Abre a boca para falar de tantos direitos. Mas se não cumpre o mais elementar dos deveres – ser aluno de verdade. Para começar, respeitando seus professores. Enxergando-os como autoridades. Depois os seus próprios colegas, vendo-os como um seres dotados de tantos direitos como ele mesmo. Depois respeitando a si. Não tem o direito de abrir mão do conhecimento, pois, antes de ser um indivíduo (bem individualista por sinal), ele é um ser essencialmente coletivo e um dia será um médico, um advogado, um político, talvez um professor e terá que não só discursar sobre ética, mas ser ético.

Que tal começar pela escola? Por que o que um aluno faz é menos grave? NÃO É!! Colar pode parecer um ato comum, usual, mas é demonstração de caráter (ou falta dele). Tentar levar a melhor, mesmo quando não é merecedor, não é algo desculpável em alunos só porque são alunos – é falta grave, é prova de desonestidade. Falar mal de professores para outros é sinal de que não se pode confiar em quem o faz. Sem citar a enunciação de palavrões em sala; e comportamentos inadequados.

Vivemos um caos na escola. Aula não se faz só com professores. Há uma via de mão dupla incontestável aí em que em um pólo tem de se estar o aluno. Falta RESPEITO nos jovens para com todos os outros, inclusive para consigo mesmo.

De quem é a culpa? De todos, certamente. Dos pais que, em sua maioria, trabalham fora e ficam sem jeito, por conta disso, de dizerem não aos filhos, com medo destes seres que agora dominam a casa, isso quando ainda dizem alguma coisa, pois muitos são simplesmente omissos e ausentes. Da escola que se deixou submeter à questão comercial e trata os alunos como clientes e, todos sabem a máxima sobre clientes, — sempre têm razão. Dos professores que deixaram a bola de neve crescer e entraram no jogo do “precisamos ser mais atrativos que os computadores“ e fecham os olhos para a falta de interesse, para os discmans (e outros eletrônicos), para a falta de educação generalizada, para a leviandade, para a barganha de pontos e entraram na brincadeira do “você finge, eu finjo“. Dos próprios jovens alunos, que, talvez não tenham aprendido o que é respeito, mas sabem muito bem o que é o eu quero, eu posso, eu tenho.

Alguns podem ler isso, concordar, discordar, mas depois vão dormir e esquecerão rapidamentemas o professor não. Ele tem de encontrar-se todos os dias com o descaso, com a falta de valor que lhe é dispensada de todos os lados, com a falta de leitura (aliás tem de fazer propaganda que estudar é bom, como se isso já não fosse suficientemente lógico), com a supervalorização de bobagens (rebeldes e cia.), com a deterioração do ser. Alguns já entraram no esquema desse sistema, mas quem ainda luta contra, que vê, que lê, que enxerga, que não consegue aceitar, ou simplesmente ignorar, como é que fica?

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