Novembro 2006


Vida de professor em fim de ano letivo vira um tumulto. São várias montagens de provas, correções, fechamentos de diários, recuperações, aulas extras para vestibular, recuperações, análise de material didático, reuniões avaliativas, reuniões de planejamento, confraternizações, UFA!

Durante este o período em que estarei evitando ser soterrado pela avalanche de trabalho, o blog estará em um curto recesso de 10 dias. Volto em 20 de novembro com textos diários.

Enquanto isto você pode reler os posts antigos ou conhecer um dos blogs amigos da coluna da direita. São todos excelentes opções de leitura.

Um abraço e até dia 20 de novembro.

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A exposição da vez no CCBB (RJ) é sobre Aleijadinho. É excepcional, até para quem, como eu, está acostumado com as obras do artista do barroco mineiro.

A exposição começa com mapas do século XVIII, ambientando o trabalho de Aleijadinho. Na mesma sala uma série de gravuras da época – muitas você vai reconhecer do seus livros de história.

Depois disto, vai-se a uma sala onde estão algumas barrinhas de ouro e moedas da época do período das Casas de Fundição. Na mesma sala, diversas obras de Aleijadinho e de outros artistas do barroco mineiro. Na última sala do andar, uma série de oratórios (utilizados nas casas para devoção religiosa).

A minha parte favorita da exposição fica no andar de baixo: um conjunto de 50 fotografias de Marcel Gautherot. Elas representam, de diferentes ângulos, uma festa religiosa nos anos 50 na Igreja de Bom Jesus de Matosinhos (Congonhas do Campo).  Viajo nas imagens dos rostos das pessoas. Fico imaginando o que estavam pensando, como estavam se sentindo no meio da multidão.

A exposição tem ainda no primeiro andar um piso de vidro protegendo as imagens de tapetes de procissão (à maneira dos de Corpus Christi), duas salas de projeção com documentários sobre aleijadinho e uma sala com reproduções do conjunto dos Profetas de Congonhas do Campo.

Serviço:

Centro Cultural Banco do Brasil – Rio de Janeiro
Endereço: Rua Primeiro de Março 66 – Centro
Informações: (21) 3808- 2020
E-mail: ccbbrio@bb.com.br

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_Para saber mais sobre a exposição, clique aqui para o site do CCBB.

_Para saber mais sobre Aleijadinho, clique aqui.

O ex-todo poderoso do Iraque, Saddam Hussein, foi condenado à morte por enforcamento por causa do massacre de Dujail, em 1982. Ele e mais dois assessores de seu governo deverão ser enforcados em 30 dias, caso os juízes de apelação mantenham o veredicto.Mais do que a sentença de morte, que já era esperada (o tribunal é composto por inimigos de Saddam), fiquei surpreso com a escolha do enforcamento como método para execução. Na maior parte dos países onde ainda existe a pena de morte, a forca não é mais utilizada. Ela é considerada uma “morte suja”, humilhante.

Com a forca a morte nem sempre é imediata, pode levar horas para falecimento do condenado. Além disto várias reações fisiológicas podem ocorrer (liberação de excrementos, por exemplo). Um espetáculo realmente horroroso.

Foi para acabar com as execuções consideradas degradantes (forca, esquartejamento, decapitação por machado), que foi criada a guilhotina na França iluminista. Era a primeira  tentativa de racionalizar a eliminação de pessoas. Hoje, nenhuma democracia mantém a prática da pena de morte, à exceção dos EUA e do Japão.

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_Para saber mais sobre a situação de Saddam, clique aqui.

_Para saber mais sobre pena de morte, clique aqui.

Flávia Maia é uma colega de profissão. Não a conheço. No entanto Érica, uma amiga em comum, me intimou a colocar este texto de Flávia no Blog.

Que bom. Pois o texto é o retrato fiel da vida dos professores hoje em dia.

“Professores não têm de ser engraçados, artistas de circo, ou animadores de festa. Primeiro que não se ganha ou se estuda para isso, segundo se a aula for mais ou menos animada isso não interfere na qualidade do trabalho. Hoje tudo é propagandeado em nome do prazer, até atividades que tenham o objetivo primeiro de instruir, trocar experiências como deveriam ser as atividades escolares. Se lá também há prazer, ótimo, lucro, já que é onde se passa boa parte do dia. Mas não deveria ser regra.

Em época em que tudo é interpretado como coação ou constrangimento e, até se criaram órgãos que legitimam isso, fica difícil ser professor. A partir do momento em que outros profissionais, na maior parte do tempo, lida com outros que ali estarão com o intuito de trabalhar. O professor já tem contra ele a desvantagem de estar lidando com pessoas que não vêem sua estada na escola como profissão, apesar de serem convidados a isso o tempo inteiro.

Se não se brinca, é-se tido como ranzinza (ou coisa pior!); se brinca, é-se tido como pouco sério (ou coisa pior!). Há que se ensinar, há que se “passar o conteúdo“, há que ser amigo, há que ser perfeito! Mas onde o aluno entra nessa história?

Ele poderia ser apenas aluno que já estaria de bom tamanho. Abre a boca para falar de tantos direitos. Mas se não cumpre o mais elementar dos deveres – ser aluno de verdade. Para começar, respeitando seus professores. Enxergando-os como autoridades. Depois os seus próprios colegas, vendo-os como um seres dotados de tantos direitos como ele mesmo. Depois respeitando a si. Não tem o direito de abrir mão do conhecimento, pois, antes de ser um indivíduo (bem individualista por sinal), ele é um ser essencialmente coletivo e um dia será um médico, um advogado, um político, talvez um professor e terá que não só discursar sobre ética, mas ser ético.

Que tal começar pela escola? Por que o que um aluno faz é menos grave? NÃO É!! Colar pode parecer um ato comum, usual, mas é demonstração de caráter (ou falta dele). Tentar levar a melhor, mesmo quando não é merecedor, não é algo desculpável em alunos só porque são alunos – é falta grave, é prova de desonestidade. Falar mal de professores para outros é sinal de que não se pode confiar em quem o faz. Sem citar a enunciação de palavrões em sala; e comportamentos inadequados.

Vivemos um caos na escola. Aula não se faz só com professores. Há uma via de mão dupla incontestável aí em que em um pólo tem de se estar o aluno. Falta RESPEITO nos jovens para com todos os outros, inclusive para consigo mesmo.

De quem é a culpa? De todos, certamente. Dos pais que, em sua maioria, trabalham fora e ficam sem jeito, por conta disso, de dizerem não aos filhos, com medo destes seres que agora dominam a casa, isso quando ainda dizem alguma coisa, pois muitos são simplesmente omissos e ausentes. Da escola que se deixou submeter à questão comercial e trata os alunos como clientes e, todos sabem a máxima sobre clientes, — sempre têm razão. Dos professores que deixaram a bola de neve crescer e entraram no jogo do “precisamos ser mais atrativos que os computadores“ e fecham os olhos para a falta de interesse, para os discmans (e outros eletrônicos), para a falta de educação generalizada, para a leviandade, para a barganha de pontos e entraram na brincadeira do “você finge, eu finjo“. Dos próprios jovens alunos, que, talvez não tenham aprendido o que é respeito, mas sabem muito bem o que é o eu quero, eu posso, eu tenho.

Alguns podem ler isso, concordar, discordar, mas depois vão dormir e esquecerão rapidamentemas o professor não. Ele tem de encontrar-se todos os dias com o descaso, com a falta de valor que lhe é dispensada de todos os lados, com a falta de leitura (aliás tem de fazer propaganda que estudar é bom, como se isso já não fosse suficientemente lógico), com a supervalorização de bobagens (rebeldes e cia.), com a deterioração do ser. Alguns já entraram no esquema desse sistema, mas quem ainda luta contra, que vê, que lê, que enxerga, que não consegue aceitar, ou simplesmente ignorar, como é que fica?

 

Uma prática quem tem se tornado comum em colégios privados ou públicos é a avaliação do professor e do trabalho escolar como um todo. Conduzida pelas modernas tendências administrativas, busca-se entender os desejos dos clientes (no caso alunos e seus pais) em relação ao trabalho pedagógico  e se a escola e os professores os atendem.

A palavra dos alunos e seus pais é fundamental, mas não deve ser determinante na avaliação da qualidade do trabalho escolar. Os objetivos dos clientes podem entrar em conflito com os da própria educação (por exemplo, o pai de uma criança com problemas disciplinares pode avaliar negativamente o trabalho da escola), compromentendo a seriedade da avaliação.

A necessidade de evitar a evasão de alunos (caso das escolas privadas) ou de conseguir votos para os políticos de ocasião (caso das escolas públicas), permite que cada vez mais a voz dos pais e alunos seja mais forte do que a de professores, gestores e técnicos em educação. Este desequilíbrio é nocivo a escola.

Tem vezes que me sinto a mais inocente das criaturas. Surpreendo-me ainda quando me deparo com a ineficiência e a incapacidade de lidar com as questões públicas por parte dos governantes. Sempre imaginei os governadores eleitos buscando os mais capacitados para ocupar as secretarias. Tudo bem que em Sucupira fosse diferente, mas nos estados e no governo federal esperava que valesse mais a competência, o conhecimento e a experiência do que o apadrinhamento político.

Um dia destes, estava vendo o telejornal da madrugada depois de um dia exastivo de trabalho. Apareceu o governador eleito do RJ, Sérgio Cabral. Na entrevista, ele se comprometeu a procurar os mais competentes profissionais e administradores para ocupar as secretarias. Segundo ele, o seu governo será diferente porque buscará atender aos contribuintes da melhor maneira possível.

Ao ver esta entrevista na TV, me perguntei: “Ué, mas não era assim?”. 

Segue o telejornal. O assunto agora é o caos nos aeroportos.  O dirigente do sindicato dos controladores de vôo informou que cada profissional só iria controlar 15 aviões por vez, pois este é o limite de segurança.

Perguntei de novo: “Ué, mas não era assim?”. 

Na sequüência uma matéria sobre presídios. Em Presidente Bernardes, o tal presídio de segurança máxima de São Paulo, os prisioneiros são isolados, têm que usar uniformes, têm direito apenas a um banho de sol por dia e as visitas são controladas.

Outra vez: “Ué, mas não era assim?”.

Resolvi desligar a televisão. Fui dormir. Talvez pudesse sonhar com o mundo ideal, onde nada disto fosse novidade.

Sou professor de um município a 45 Km do Rio de Janeiro. Lá existe  um certo ar interiorano nos costumes, herança do ambiente rural das vizinhanças. Às vezes me sinto como em Sucupira (se você não conhece a cidade das irmãs Cajazeiras, clique aqui).

Em Sucupira, os Odoricos nomeam à vontade para os cargos “de confiança”. A indicação geralmente é baseada na amizade de alguém influente. Conhecimento e experiência contam pouco. Democracia passa longe. Os indicados estão sempre dispostos à conter os subversivos. Conter a língua é fundamental, pois falar a verdade ou exigir direitos são atitudes que podem ser punidas. Exemplo disto é o que ocorreu na última quarta-feira.

O professor Oldair ensina matemática para alunos de 5ª a 8ª série em uma escola municipal de Sucupira. Na última quarta-feira, ao chegar ao colégio, o professor foi comunicado pela diretora da escola que seria transferido e que não poderia dar aulas. Oldair perguntou pelo documento de transferência. A indicada informou que não o possuía. O professor então, afirmando  que só sairia do colégio a partir da apresentação do documento de transferência, subiu para sua turma de 5ª série.

Meia hora depois, a diretora  foi a sala em que Oldair estava com três guardas municipais. Segundo o professor, ela pediu para que os alunos saíssem. Foi quando o professor saiu pelos corredores gritando que estava sendo vítima de injustiça. Os guardas o pegaram à força e retornaram para sala de aula, trancando a porta. Lá, O professor foi agredido e coagido. Saiu algemado pelos corredores do colégio.

O sindicato dos professores de Sucupira foi chamado e encaminhou o professor para a delegacia. Oldair fez queixa-crime contra a diretora por constrangimento ilegal e contra os guardas municipais por agressão.