Quando fiquei sabendo da história de dona Dora, imediatamente me coloquei ao seu lado. Na zona sul do Rio, Maria Dora Arbex, uma senhora de 67 anos,  baleou a mão do bandido que tentava assaltá-la. O ladrão foi preso e dona Dora também. Ela não tinha porte de arma.

Mesmo sabendo da necessidade do rigor com o porte de armas e do quão perigoso é reagir a um assalto, não consigo deixar de alegrar-me em ver o bandido levando a pior. Eu sei, é contradição, mas fico feliz ao imaginar a cena. O sujeito pensando: “Vou fazer um ganho nesta velhinha.”  E depois sendo surpreendido com o trabuco da vovozinha.

Como bem disse Vinícius, tristeza não tem fim, felicidade sim. Eis que d. Dora foi condecorada com uma medalha pela câmara municipal do Rio pelos bons serviços prestados à cidade. Não considero balear alguém, nem mesmo um ladrão, um bom serviço. Entretanto, apesar de ver a comenda como absurda, não tenho nada com isto. Sou cidadão niteroiense, os cariocas que condecorem lá quem quiserem. Minha tristeza surgiu do discurso de dona Dora ao receber a medalha. Quanta decepção!

Com uma língua tão rápida quanto seu gatilho, Dona Dora explicou que, para ela, favelado, morador de rua e bandido é tudo igual. A solução é jogar balde d’água e ovo para ver se saem das ruas. Entre várias declarações, ela afirmou: “se não tem lugar para tanta gente nos albergues, é melhor colocar todo mundo em um navio e levar para alto-mar”. Ela também falou que a prefeitura deveria fazer uma limpeza nas ruas, tirando toda “esta gente” das calçadas. Limpeza é para tirar sujeira e lixo. Será que para dona Dora “esta gente” é lixo?

E outra pergunta mais importante: quantas donas Doras não existirão por aí?

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