Estávamos sentados na sala dos professores, eu, a faxineira e o porteiro. Eles dois envolvidos em uma tarefa, coisa da faculdade que eles estão cursando juntos. Eu apenas aguardando o sinal para a última aula do dia.

“Quantos são os mandamentos?”  perguntou o porteiro.

“São 11.  Não! São 10.”

“São 10 ou são 11? Já vi que você fez isto aqui nas coxas.”

Ela se indgnou. “Se você é tão sabido, faz sozinho, ué!”

“Tá, vou colocar 10 aqui. E sentidos, são 6, né?”

“Acho que sim.” Falou a faxineira, sem firmeza.

Eu, que acompanhava o diálogo com espanto,  intervi. “Acho que são cinco…”´

Ela conferiu. “Olha aqui no livro, são cinco mesmo. Você é que não sabe nada.”

E ele, prático. “Ah, tá! Deixa isto para lá. Vamos a esta segunda parte aqui. Você respondeu todas estas perguntas?”

“Claro que sim. É rapidinho. Não vale nota. É só para saber sobre você. Aqui, livros, quantos você já leu?”

“Vai dizer que você já leu algum livro?” Duvidou o porteiro.

Ao que respondeu a servente. “Não li não. Odeio ler. Troço mais chato. Esta pergunta eu deixei em branco. Mas você também não deve ter lido nada…”

Ele, orgulhoso. “Já li sim, dois, um na 1ª série e um no 2º ano. A professora obrigou. Mas ler é muito ruim. Prefiro ver filmes.”

Bate o sinal, arrumo minhas coisas para ir para a sala de aula. Mas antes, tomado de uma curiosidade mórbida, pergunto. “Qual curso vocês estão fazendo?”

Ele responde. “Letras”.

E ela completa. “Português-Literatura”.