Juquinha é adepto inveterado da vadiagem. Sendo assim, esteve em todas as recuperações bimestrais, passando em algumas matérias e reprovando em outras. Ao final do ano, Juquinha foi à recuperação final, entretanto, diferentemente do Joãozinho do post anterior, ele não passou. Coitadinho.

Esta é a sua situação ou a do seu filho? Bateu o desespero? Calma. Seus problemas acabaram! A lei diz que o sujeito pode passar de ano através da progressão parcial. Vulgarmente conhecida como dependência, a progressão parcial é obrigatória no ensino público e opcional nas escolas particulares.

Quando o colégio tem a mesma série em dois turnos é fácil. O aluno em dependência que estuda no turno da manhã, volta à escola, à tarde, para cursar a matéria em que ficou reprovado. Não havendo a mesma série em dois turnos, a escola pode contratar um professor para a dependência. Funciona da mesma maneira, o aluno da manhã volta à tarde para cursar a matéria em que ficou reprovado. A diferença é que não existe uma turma, apenas ele e o professor.

O problema neste segundo esquema é o valor da mensalidade de dependência. O piso salarial da minha cidade é de R$ 9,32 de 5ª à 8ª série. Para um aluno em dependência na 6ª série, o colégio teria que pagar R$ 139,80 ao professor (3 aulas por semana, por cinco semanas).  

Para os pais a conta é bem diferente. Se normalmente o pai paga, digamos, R$ 300 para que seu filho estude 10 matérias, na dependência em uma matéria ele desejará pagar 10%, R$30. Nenhum colégio pode receber R$30,00 e pagar R$139,80.  A escola precisaria no mínimo de 5 alunos para garantir o salário do professor, sem contar outros custos e lucro. Geralmente as turmas de dependência tem um, no máximo dois alunos. É muito difícil encontrar 5 alunos em dependência, na mesma série, na mesma disciplina.

É aí que os diretores de escolas deixam a criatividade fluir  Já vi professor ser contratado para dar aulas de dependência para todas as séries ao mesmo tempo. Ele tinha três aulas semanais (2 horas e 30 minutos) para ensinar todo o conteúdo para os alunos em dependência da 5ª, 6ª, 7ª e 8ª séries e 1º, 2º anos. Imagine o quanto se ensinava e o quanto se aprendia em uma aula como esta.  Ao final deste ano, perguntei ao professor sobre o rendimento dos alunos. Ele me disse que todos eles tinham sido aprovados. Fantástico, não?

Em outra escola, testemunhei o seguinte diálogo ocorrido em agosto daquele ano. Decorridos 5 meses daquele ano letivo, vira o diretor e fala para o professor do 2º ano:

— Fulano ficou em dependência na sua matéria. Você tem que colocar uma nota para ele, ok?

— Como assim nota? Não deveria haver aulas? Ensino, aprendizagem, conhecimento? Estas coisas?

Ao que disse o diretor:

— Olha rapaz, não atrapalha.  Aqui é assim. Manda o aluno fazer um trabalhinho e coloca a nota aí.

Em várias escolas — públicas e particulares —  a dependência é feita deste modo. Trabalhinhos que substituem um ano letivo inteiro. Depois querem saber o motivo dos péssimos resultados dos alunos brasileiros nos testes internacionais. Vão mal porque não estudam. Não estudam porque não precisam.

Com honrosas e raríssimas exceções — tão raras que eu nunca vi —  a maioria das escolas faz da dependência uma maneira de conseguir as matrículas dos alunos que foram reprovados em outras escolas, ou de garantir que seus alunos não fujam para outros colégios.

Vai uma regrinha para avaliar a escola onde você ou seu filho estuda:

Colégio sério não tem dependência.

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_ Para o texto integral da Lei de Diretrizes e Bases da educação, clique aqui.

 

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